Covid-19

“Existem vários tipos de luto envolvidos na pandemia”, diz psicólogo Luiz Coelho Neto

Especialista em Psicologia de Perdas e Lutos, Luiz Coelho Neto acredita que a pandemia trouxe ao cotidiano a perspectiva de novas leituras diante da vida e das relações e que, no atual momento, é preciso focar na esperança. “Existem vários tipos de luto envolvidos na pandemia. A questão do direito de ir e vir é um deles”, diz ele sobre o novo coronavírus

Kelly Hekally
kellyhekally@ootimista.com.br

Foto: Divulgação

As palavras de Luiz Coelho Neto, 57, sobre um dos grandes tabus de parcela significativa da humanidade são repletas de destreza e leveza. Psicólogo com foco nas discussões e tratamento acerca de perdas e lutos, Coelho Neto, ao longo de suas décadas de carreira, debruça-se sobre a morte e o que ele chama de “materialização da vida” que, segundo o terapeuta humanístico, é responsável pelo apego dos ocidentais a valores que reforçam a crença da propriedade sob o outro.

Em conversa com O Otimista por ligação telefônica, o nome à frente do Instituto Ciclo de Psicologia em Perdas e Lutos, na Aldeota, explica como o luto e a morte foram sendo ressignificados e de que maneira a pandemia contribui nas mudanças diante daquilo que, convencional e culturalmente, entende-se por luto e perdas.

O Otimista – Sua especialidade é lidar com perdas, lutos…
Luiz Coelho Neto – Eu sou terapeura humanista. Dentro da psicologia, uma das minhas especialidades é perdas e lutos. Podem existir vários tipos de lutos. As pessoas lutam porque perderam alguém, acabaram relacionamento, tiveram um declínio da situação financeira, migraram de uma cidade para outra tem todas… A questão é que compreendemos luto sob o ponto de vista da perda de alguém. Claro que o maior luto é perder alguém, mas existem vários tipos de perdas, especialmente no momento em que estamos vivendo.

O Otimista – O que o levou a buscar especialização fora de Fortaleza?
Coelho Neto – Na universidade, estudamos todas as correntes da psicologia. Eu optei por me especializar São Paulo, por dois anos. Uma coisa que me intrigava é que, na universidade, a gente não vê nada que possa nos ajudar, como profissionais, a trabalhar com a maior dor que existe na humanidade, que é a morte. Fiz também cursos em Nova Iorque e Londres. Comecei a fazer o trabalho de consultório. Tenho trabalhado com palestras e dou curso de capacitação a profissionais sob perdas e lutos, além de treinamento a profissionais de funerárias e cemitérios.

O Otimista – Você experimentou outras culturas… Em geral, como a perda e o luto são encarados fora do Brasil?
Coelho Neto – Nós ocidentais não somos preparados para a perda. Somos voltados ao ter, ao consumismo. Não somos trabalhados para a questão da transcendência. Em se tratando dos orientais, contudo, existe uma compreensão e maior abertura para significados para a morte. A vida pra eles não é só aqui. No Ocidente, a gente percebe a questão do apego. Temos a impressão de que somos donos das coisas e das pessoas. Há uma frase de linha espiritual que diz que nada é da gente, que nada nos pertence. Que, inclusive, nosso corpo nos está emprestado. Estamos em sistema que nos faz acreditar nesta grande maquete em que a gente vive, que somos seres deste mundo. Os orientais acreditam que são seres espirituais vivendo a existência humana para depois voltar para nossa primeira moradia.

O Otimista – Que é onde?
Coelho Neto – Em outra dimensão, segundo a crença de cada pessoa. Por acreditar que preciso ter uma visão isenta, não me defino de nenhuma religião. Atendo pacientes de todas as religiões. Meu papel é ajudar a pessoa nas perdas para que ela possa seguir a sua vida. Meu papel não é questionar por motivos de crença, mas fazer o paciente enxergar outras possibilidades, acreditando que há de fato um momento de desligamento. Muitas pessoas não conseguem ressignificar esse momento e então o luto se estabelece. A gente pensa que o luto acontece na hora da perda, mas na realidade ele vai se instalando aos poucos.

O Otimista – Qual o conceito original de luto e como as pessoas lidavam com ele?
Coelho Neto – Freud chamava o luto de estado de melancolia. Realmente, existe uma alteração das emoções das pessoas que perdem. Antigamente existia no Brasil e outros países o hábito de todas as de preto. O uso da cor, originalmente, simboliza que você está intrigado com o mundo e que, por isso, por um tempo, você não pode ser aquela pessoa feliz, alegre. Inclusive, no passado, as pessoas costumavam viver um ano usando preto para que mostrar que elas sentindo mesmo dor com relação a algo.

O Otimista – O luto ainda é assim?
Coelho Neto – A morte ficou muito banalizada, e a imprensa tem um papel nessa mudança. Hoje em dia é muito comum você ver cenas de violência, corpos estirados no chão. Acontece tanto em grandes e pequenas cidades. Ficou um pouco comum saber saber que a violência acontece. Somado a isso há o fato de o homem ter se aproximado mais do material, que é o que dá sustento a essa caminhada ocidental, do possuir e do ter. Veja que nossas crianças aprendem mais a concorrer. Se os colégios adotassem uma disciplina desde a infância de educação para a vida, para entender sobre a morte, compreender que ela existe, a morte não se tornaria tão grande, dolorida. Mas a gente não trabalha absolutamente nada disso.

O Otimista – As pessoas ficam mais ou menos tolerantes quando perdem alguém?
Coelho Neto – Depende muito do que chamo de natureza do vínculo. Quando o luto é de alguém com quem se tinha uma relação extremamente difícil e a morte é súbita, provavelmente será mais difícil. A gente vê que os pilares que sustentam o ser humano na caminhada da vida estão ficando mais frágeis, que o sentido existencial está se reduzindo. Por isto que, quando as pessoas passam por alguma dificuldade, elas têm a tendência de se tornar pessoas vulneráveis.

O Otimista – E como estão as perdas e os lutos neste momento de pandemia?
Coelho Neto – Eu costumo dizer que nunca vi um vírus tão democrático. Ele começou nas classes mais ricas e foi às mais pobres. Ou seja: não discriminou nível social. Daí, existem vários tipos de luto envolvidos na pandemia. A questão do direito de ir e vir é um deles. Complicadíssima. As pessoas que têm alto grau de ansiedade, por exemplo, imagina como é para elas ficar trancada. Há outros tipos de doença envolvidas neste processo. Houve uma quebra de rotina e de métodos. Atingiu economicamente também. As relações estão colocadas em teste. Tenho visto casais se separando. Apesar de muito triste o momento, ele traz alguma coisa inteligente: ele está fazendo com que o ser humano reveja seus valores. Estamos tendo que colocar nossa mente para parar. Abre caminho para reflexões sobre a caminhada espiritual, interiorização. Existe uma possibilidade de internalização de novos valores.

O Otimista – Há algum significado transcendental nesta pandemia?
Coelho Neto – Embora eu não seja cientista, acredito sim que há um significado transcendental da pandemia. Precisamos de disciplina, paciência e muita fé. São os três pilares para que a gente possa viver essa fase, inclusive com todas as sequelas que ficarão. Eu acredito em uma mudança para melhor também em nível de planeta. Fiz algumas leituras que mostram que a rotação da Terra diminuiu, que o efeito estufa baixou, que certos animais estão voltando a aparecer. Em Veneza e Itália, por exemplo, os golfinhos estão voltando aos canais. É como se a natureza realmente estivesse cansada, extremamente machucada, e parou tudo para uma reflexão completa e que o caminhar possa seguir.

3 respostas para ““Existem vários tipos de luto envolvidos na pandemia”, diz psicólogo Luiz Coelho Neto”

  1. Maravilhoso ! Grande profissional que é antes de tudo, um grande ser humano. l. Entrevista que deve
    ser lida muitas vezes.

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