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Ana D’Aurea Chaves e Rita Cruz: Viagens além do convencional

Ana D’Aurea Chaves sonhava, desde menina, em dar uma volta ao mundo. Não só realizou o desejo algumas vezes, como há quase 17 anos proporciona o mesmo a seus clientes, que também são amigos. Ela e a sócia, Rita Cruz, desenham roteiros turísticos de altíssimo padrão, montam grupos e embarcam junto. É o Além do Olhar, “a viagem perfeita”, como diz Rita

Uma hora de conversa com Ana D’Aurea Chaves e Rita Cruz é um passeio pelos cinco continentes. Elas estimam já terem ultrapassado a marca de 80 países visitados, muitos dos quais com grupos organizados por elas, em roteiros que fogem do trivial. Essa é a proposta do Além do Olhar, um programa de viagens exclusivas. Tour pelo Egito em avião privado, travessia pelo rio em um elefante no Laos, hospedagem em um yurt – residência típica dos nômades mongóis – são algumas das experiências que elas já compartilharam com seus clientes nos 17 anos do programa. 

Clientes e amigos, fazem questão de deixar claro. “Esse grupo é fechado. Você não vai encontrar nossas viagens à venda em lugar nenhum. Tem mais de 300 pessoas e só entra gente nova se for indicado por um amigo”, explica Ana. O trabalho começou como hobby. Ana organizou uma viagem para amigos, eles gostaram e pediram mais. Rita era cliente, mas depois de um ano escrevendo um livro juntas (Viagens Além do Olhar), virou sócia. Deu certo. “Ela é muito zen, eu sou muito prática. É um complemento”, conta Rita. 

Com quatro viagens por ano, as vagas são disputadas. Mas crescer não está nos planos. “Tira o prazer”, dizem elas, apaixonadas pelo que fazem. Isso é algo que fica evidente nesta entrevista, que aconteceu na casa de Ana, onde fotos de família e objetos de decoração do mundo inteiro dividem espaço. Confira. 

O Otimista – O Além do Olhar já tem quase 17 anos. Foi algo que começou por acaso, ou já havia planos de fazer do turismo um trabalho?
Ana D’Aurea Chaves – Começamos em 2003 de um modo bem não profissional, foi uma viagem para amigos. Eu tomei a frente e, quando voltamos, outras pessoas pediram para organizar novamente. A Rússia foi a estreia. Fomos estrear bem longe. Nessa época a Rita viajou comigo como cliente, em 2004, 2005… Quando chegou em 2008, resolvemos escrever um livro de turismo. Quando terminou o livro, foi um ano trabalhando juntas, convidei para ela ser sócia. Foi em 2009, fazem dez anos. Na época, já estava crescendo, já tinha muita viagem e eu não dava conta. Você sabe que sociedade tem que ser uma coisa de afinidade e o casamento está dando certo.
Rita Cruz – Os livros foram indicações de roteiros. Fizemos dois volumes, um sobre Europa e outro sobre Ásia, América e África. Eles têm muita informação histórica, com explicações no rodapé. E foi um sucesso, fizemos lançamento no Ideal.

O Otimista –  De onde vem a paixão por viagem?
Rita – Eu viajo desde os 15 anos com meu pai. Ele viúvo e adorava viajar. Com ele conheci, por exemplo, o Irã, Síria, Líbano, Filipinas. Esses lugares que não eram muito usuais, eu já rodava o mundo. Depois, começamos a viajar juntas.
Ana – Papai também. A mamãe, menos. Aliás, os quatro irmãos não perguntam nem para onde é. Falou em viagem, dizem “vou”. A gente herdou e, agora, está passando para os filhos. Mas você vê que a gente sempre viajou com arte e cultura, que é o nome do nosso programa, Viagem Além do Olhar, já diz tudo.

O Otimista – Vocês trabalham com viagens de altíssimo padrão. O que é determinante para este tipo de turismo?
Rita – Houve uma evolução nossa para onde o cliente queria, que é um turismo exclusivo. O pilar são os hotéis, mas também investir no diferencial roteiro. Roteiro qualquer agência de turismo faz, mas o diferencial é ir para um país e escolher um local diferente. A gente vai para o Japão agora e vamos para os Alpes Japoneses, muita gente nem sabe que tem Alpes no Japão.
Ana – E sempre aliando, que é uma característica forte do Além do Olhar, uma preparação com professor de história, reuniões, aulas para o roteiro. E arte e gastronomia. O cliente pode até não querer ir, mas está na programação. Para tudo o que tiver de importante de arte na cidade, a gente leva o grupo. Para o Egito, por exemplo, tivemos o melhor egiptólogo à nossa disposição. Fizemos o roteiro inteiro num avião particular, privado, com segurança. Outra coisa importante: não sai nenhum grupo sem nós estarmos acompanhando.

O Otimista – Quem é o público de vocês?
Ana – Uma coisa que é muito importante e quem nos conhece sabe: esse grupo é fechado. Você não vai encontrar nossas viagens à venda em lugar nenhum. Tem mais de 300 pessoas nesse grupo e só entra gente nova se for indicado por um amigo ou familiar. São todos amigos, alguns de infância, colégio, faculdade. Eles convivem com a gente antes, durante e depois da viagem. Vai um para uma viagem, na próxima, ele leva um amigo, ou filho…

O Otimista – As viagens são sob demanda?
Rita – Existe o modelo em que o grupo já vem quase fechado, com dez, doze pessoas. Em outros, não. Por exemplo: vai ter a Expo Dubai, que acontece de cinco em cinco anos e vai ter nesse ano. Então é um motivo para a gente formar um grupo. Escolhemos a semana que tem a Fórmula 1 em Abu Dhabi. Então existe a viagem escolhida com motivo.

O Otimista – Vocês fazem uma viagem de reconhecimento antes de levar um grupo?
Ana – Isso é um grande diferencial. Nós só levamos um grupo para lugares aonde já fomos. E lugares preferencialmente longe do Brasil, exóticos. Por exemplo, já fizemos aquela Ásia toda. Começamos o Oriente Médio com o Irã.

O Otimista – Quantos países vocês já conhecem? O que vocês não conhecem ainda?
Rita – Ah, eu não contei (risos). Uns 80. Acho que 100 eu não conheci, mas uns 80, 90…
Ana – Melhor perguntar o que não conhecemos. Uma coisa que está na nossa lista é a Aurora Boreal. É uma coisa que pode ser na Islândia, na Finlândia, Noruega, estamos vendo.

O Otimista – Vocês falam muito de cultura. Mas há um pouco de aventura nos roteiros?
Rita – Mais cultura, menos aventura. Agora, numa viagem, é normal você tem um mínimo de aventura. Gastronomia é muito forte. Fazemos algumas viagens só para gastronomia.
Ana – Cada roteiro tem uma pesquisa enorme de restaurantes. Nós achamos que faz parte de uma viagem o hotel, as artes, a gastronomia. Isso faz toda a diferença. Assim como ter contato com o povo.

O Otimista – Como vocês trabalham a segurança nesses roteiros exóticos? Ir para o Oriente Médio, por exemplo, pode assustar muita gente.
Ana – Se fosse hoje, seria uma imprudência enorme. Mas nós levamos um grupo para o Irã em fevereiro de 2018, foi uma maravilha. As riquezas do Irã são coisas que não tem em lugar nenhum. A gente vai para o Líbano em fevereiro, até ontem estávamos indecisas, mas vamos acompanhando o noticiário.
Rita – A gente sabe o que é possível ou não. Não vamos colocar em risco, nem a gente, nem nossos clientes.

O Otimista – Vocês já viajavam juntas antes do Além do Olhar?
Rita – Nós passamos uma época, os dois casais, que a gente viajava esse mundo todo. Mesmo antes de ela começar o programa. Então é viagem muita mesmo.

O Otimista – E as viagens em grupo, são mais lazer ou mais trabalho?
Ana – As duas coisas porque a gente viaja com amigo. Então, num restaurante à noite, a gente senta com eles.
Rita – Sem contar que 80% das viagens, meu marido vai comigo. Então é lazer também. Mas é trabalho porque você tem que acompanhar a viagem toda, ver o que não está dando muito certo. Vai adaptando o roteiro.

O Otimista – Qual a coisa mais impressionante que vocês já viram numa viagem?
Rita – Foi a Patagônia. Eu sou muito urbana, mas quando cheguei na Patagônia, aquele silêncio, aquele mundo, eu senti Deus, senti paz. A descoberta de que eu gosto da natureza, que Deus estava ali perto de mim, foi maravilhoso. E, de monumento, o Taj Mahal, na Índia, é uma sensação indescritível, uma coisa etérea. E também a mesquita de Abu-Dhabi. Sem falar em tanto pôr do sol que a gente já viu.
Ana – Por isso que esse casamento dá certo (risos). As minhas emoções são totalmente diferentes das dela. Por exemplo, atravessar um rio, num elefante, sem cela, eu achei o máximo, jamais vou esquecer. E também templo, principalmente os da Ásia. Um tempo que fui em Bali, o Besakih, templo mão da Indonésia, são 68 templos, para chegar são duas horas de moto pela floresta.

O Otimista – Os perfis diferentes ajudam na qualidade da viagem?
Rita – Ela é muito zen, eu sou muito prática. Dá certo, é um complemento.

O Otimista – Vocês tem a Casablanca como parceira. Como funciona?
Rita – A gente fecha o grupo, o roteiro, e leva para a nossa parceira de 15 anos, que é a Casablanca.  A Casablanca faz todo o operacional, todo o financeiro, contrata as operadoras toda. Mas ela recebe nossa viagem pronta e fechada.

O Otimista – Qual a tendência nesse segmento de vocês?
Ana – Sabe também qual é um grande diferencial? As pessoas gostam de viajar conosco porque viajam com amigos, ali tem gente que não se conhecia e passou a se conhecer, amizades de tempo de colégio que se reencontraram, se fortificaram. Acho até que negócios já foram feitos nessas viagens.

Rita – Negócios sim, grandes negócios entre eles. Ela está falando muito de amizade, porque toca mesmo. Mas o que eu noto hoje, Ana, que é uma tendência minha, é viajar para o exótico, para a Ásia… fazer o diferente. Fazer um grupo para Europa, Estados Unidos não rola.

O Otimista – Vocês citaram uma viagem para o Japão em que tiveram de abrir outro grupo porque venderam as 24 vagas de uma vez. É um produto muito exclusivo. Existe, digamos, uma certa disputa por vaga?
Rita – Existe. No caso de uma viagem, por exemplo, de uma viagem que não tem como ter mais de 24 vagas. Mas gente resolve tudo na amizade.

O Otimista – Qual foi o maior grupo com que vocês viajaram?
Ana – Levamos cem pessoas para a comemoração dos nossos 15 anos. Pensamos onde poderia levar cem pessoas, então foi em um navio, num cruzeiro. Saímos de Mônaco e cada dia tinha uma festividade, uma coisa diferente. E, no último dia, tiramos essa foto. Esse foi um cruzeiro.

O Otimista – Vocês tem cliente fora do Ceará?
Rita – Temos. em Belo Horizonte, Brasília, Goiás, Recife… Temos um grupo agora para o Peru todo do Recife, um grupo de jovens empresários. Então temos sim, não é em grande escala, mas temos.

O Otimista – Vocês pensam em crescer?
Ana – Não, acho que está de bom tamanho. Eu e a Rita trabalhamos com muito prazer, por gostar de viajar, por gostar de história, arte. A gente trabalha sábado, domingo, de noite. Às vezes, 11h da noite estamos trocando ideia. Se crescer e virar uma coisa estafante, tira o prazer.

O Otimista – O que é uma viagem Além do Olhar?
Rita – A viagem Além do Olhar é perfeita. Tem horas em que a modéstia é bem-vinda, mas tem horas em que precisa ter autoconfiança e dizer. Acho incrível a confiança que os clientes têm na gente, que às vezes eles não sabem nem o destino. Isso é um orgulho, tenho o maior prazer nisso.
Ana – Eu tenho muuuuito prazer em trabalhar com viagem. Com 12, 13 anos, eu imaginava dar uma volta ao mundo, mas eu não associava isso a dinheiro. Por felicidade, fiz duas voltas ao mundo em 30 dias. Eu sou muito realizada pelas viagens, pelo Além do Olhar, pelas amizades. Viagem é um investimento maravilhoso, você vai se transformando, crescendo, vendo o mundo de outra maneira. Eu mudei muito com as nossas viagens.

Mais
Ana é formada em Filosofia e Letras. Foi funcionária do Banco do Brasil por 25 anos e diretora da Ikone Eventos.

Rita é graduada em Direito, com 30 anos de atuação na Defensoria Pública.

Os livros Viagens Além do Olhar foram lançados em dois volumes, em 2009. O primeiro aborda África, América e Ásia. O segundo, a Europa.

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