Economia

140 dias de restrições na economia apontam novos cenários nos negócios

Em quatro meses e meio de restrições nas atividades, setores da economia que não pararam precisaram se adaptar a uma nova realidade social, a um consumidor mais atento e às tecnologias como aliadas de negócios

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

Desde o primeiro decreto publicado pelo Governo do Estado, em 16 de março, neste domingo (2) o Ceará completa 140 dias de medidas restritivas para evitar ou conter a disseminação do novo coronavírus. A partir de então, comércio, indústria, estabelecimentos de ensino, serviços públicos e privados, feiras e outras atividades pararam ou tiveram funcionamento reduzido no retorno desde 1º de junho e assumiram, sob a força da lei, consequências econômicas e sociais em favor da saúde coletiva.

Os setores que não pararam, considerados essenciais à população, sofreram limitações estruturais, comportamentais e precisaram se reinventar para lidar com um consumidor exigente, ambientado com a digitalização de processos e, principalmente, preocupado com a saúde. O Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19 foi criado com a condução de autoridades públicas em saúde e participação de órgãos e entidades públicas e de representatividade social para definir estratégias de enfrentamento da pandemia no Ceará. Entre as definições, o conceito de serviço essencial, ligado à dignidade humana, foi revisto para priorizar a saúde.

Além de fornecimento de água, energia elétrica, gás, telefonia, coleta de lixo, internet, segurança, operações bancárias, outros foram definidos em lei, como funcionamento de postos de combustível, pet shops, atividades médicas, hospitalares e funerárias, imprensa, comercialização de alimentos, medicamentos e produtos de higiene e limpeza, controle de tráfego, serviços postais, transporte de cargas, monitoramento de barragens e construções, entre outros.

De março a maio, atividades consideradas não essenciais pararam e só começaram a retornar a partir de 1º de junho, com a aplicação do Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais, dividido em quatro fases e ainda em andamento. Mais de 95% das atividades retornaram em Fortaleza, mas há municípios no Estado ainda com restrições no funcionamento de indústrias, comércio e serviços.

Entre os setores que não pararam, o supermercadista não só se manteve como registrou aumento nas vendas, mesmo com as pessoas indo menos às compras – porém comprando mais. No Estado, são cerca de 300 lojas supermercadistas vinculadas Associação Cearense de Supermercados (Acesu). De acordo com o secretário executivo da entidade, Antonio Sales, as vendas no segmento tiveram um incremento significativo. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) registra aumento de 15% a 20% nos negócios, sendo que os gêneros alimentícios, material de limpeza e bebidas foram os itens que mais cresceram.

Sales explica que, logo no começo da pandemia, houve amento de fluxo nas lojas. Naquelas primeiras semanas, havia medo de desabastecimento por parte da população em geral, como havia acontecido em outros países. Mas o risco não se confirmou. “Como continuamos atendendo ao público nos horários habituais e sem falta de produtos consolidamos a confiança do consumidor”, atribui Antonio Sales.

De um consumidor desconfiado acerca da garantia de abastecimento, ao longo das semanas esse perfil deu lugar a um cliente mais exigente quanto às normas de segurança em saúde. “Os protocolos foram integralmente executados pelos supermercados com orientação da Abras e dos órgãos reguladores federais, estaduais e municipais”, adianta. Eles se refere à disposição de proteção de acrílicos nos caixas, disponibilização de álcool apropriado para limpar carrinhos e higienização das mãos, sinalização horizontal para manter distanciamento entre clientes e funcionários, entre outras medidas.

Para o secretário executivo, os canais digitais tiveram um incremento não só nas vendas e atendimento ao cliente, mas em recursos como contratações de colaboradores e ampliação das estruturas de logística. Isso, para ele, representa uma mudança irreversível na logística e gestão dos negócios no setor. “O atendimento tradicional continuará ocorrendo em sinergia com o atendimento online. Essa combinação será o ponto chave para o varejo seguir atendendo o consumidor como ele deseja”, sinaliza. As novas modalidades de serviços online demandam, conforme explica Antonio Sales, várias adaptações no setor, como a aquisição de programas de informática e contratação de profissionais capacitados para a implantação e operação. “Esse deve ser o norte para as grandes, médias e pequenas lojas”, aponta. Com uso de aplicativos próprios e os indiretos, uma das expectativas na área de tecnologia é a criação de uma ferramenta própria para o setor.

Pandemia fez consumidor mudar comportamento e estratégia de compras

Tudo caminhava para, na maioria dos lares, uma aposentadoria cada vez mais próxima do fogão. Com alimentação fora do lar e busca por serviços de delivery aumentando antes da pandemia, cozinhar em casa não estava entre as prioridades da população. Mas a instalação do isolamento social e a obrigatoriedade de ficar em casa mudou o relacionamento com a residência e, consequentemente, a maneira de consumir e se alimentar. Assim, mesmo com o afastamento presencial do ambiente do supermercado, o consumidor passou a comprar mais.

A análise é do diretor-presidente do Mercadinho São Luiz, Severino Ramalho Neto. Para ele, outra expectativa do mercado é pelo uso massivo do micro-ondas. “Mas foi tudo ao contrário. Ressuscitaram o fogão e aposentaram o micro-ondas. As pessoas passaram a se descobrir cozinhando, gostaram do que estavam fazendo, passaram a comer de forma mais sadia e causaram essa revolução dentro do lar. Isso acarretou uma mudança de comportamento dentro da loja”, avalia. O resultado, segundo ele, foi a redução na venda de industrializados e procura maior por produtos in natura e com menos conservantes. “Quem acha que está entendendo tudo que está acontecendo, tenha certeza de que não está prestando atenção. Foi tudo muito no escuro, a demanda mudou em uma velocidade muito grande, tudo de uma vez, comportamentos totalmente distintos”, reflete.

No geral, as vendas nas lojas do São Luiz cresceram acima de 20%, mesmo com os restaurantes internos sem funcionar. A unidade do Shopping Riomar Fortaleza chegou a fechar, mas já reabriu. Isso foi um reflexo do que ocorreu nas lojas em shoppings, que registraram movimento mais fraco em relação às unidades em ruas e avenidas. “Houve loja de rua que registrou aumento de até 40%, mas no geral cresceu pouco mais de 20%”, destaca.

Os índices, segundo Severino Ramalho Neto, são positivos em relação ao ano passado e mostram tendência de aumento até o fim do ano. Ele supõe que a venda digital, que cresceu com a pandemia, passe por estagnação e qualificação. A restrição, para ele, deve-se à abertura de outras atividades econômicas e retorno do cliente ao comércio, inclusive ao supermercado. Para o empresário, a fusão entre físico e digital e os investimentos em tecnologia devem nortear os próximos passos da economia.

Severino Neto informa que, no grupo, as aplicações em tecnologia da informação quadruplicaram. “Por mais que estejamos em momento positivo de venda, temos certeza de que os investimentos têm de ocorrer de forma generalizada para garantir o futuro, seja ele no mundo digital, mas principalmente na área de gestão”, complementa. Segundo ele, havia previsão de abertura de três lojas, mas só uma será inaugurada, na Avenida Júlio Ventura, em Fortaleza. No primeiro semestre de 2021 devem ser inauguradas unidades no Eusébio, em Juazeiro do Norte e uma outra Fortaleza.

 

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