Economia

90% da força de trabalho será retomada no Ceará com o início da Fase 3 em Fortaleza

Um total de 18 cadeias de atividades produtivas podem funcionar, a partir de hoje, com sua total capacidade de funcionários. Barracas de praia continuam sem permissão para abrir, assim como o horário noturno de bares e restaurantes

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

Com estimativa de que 90% dos empregos formais sejam reativados no Ceará, começa hoje, em Fortaleza, a Fase 3 do Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais. A capital é a cidade mais avançada no resgate e ampliação da economia, mas há regiões no estado que ainda estão na fase de transição e com municípios em isolamento rígido, como Sobral e Cariri. A diferença revela que a liberação da economia é regionalizada e acompanha o comportamento da pandemia.

Prova disso é que a Fase 3 previa reabertura das barracas de praia, bares e funcionamento de restaurantes até 23 horas, mas a decisão sofreu retrocesso devido a um aumento nos indicadores ao longo da semana passada. Em compensação, o transporte intermunicipal volta dia 10, esporte ao ar livre e individual já pode ser praticado em praças e calçadões, restaurantes e templos religiosos podem receber com 50% de sua capacidade e shoppings centers podem ter todo o efetivo de volta ao trabalho, embora o horário de funcionamento permaneça com a mesma restrição.

O plano começou a ser posto em prática no dia 1o. de junho. Desde então, todas as decisões que viraram normas em decretos estaduais e municipais foram tomadas com base nos indicadores de saúde. De acordo com o titular da Secretaria de Planejamento do Ceará (Seplag), Flávio Ataliba, as etapas (transição e quatro fases, cada uma intercalada por 14 dias) precisam ser rigorosas na análise de informações sobre casos de covid-19, demanda por atendimento e internação, disponibilidade de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e óbitos. “A gente precisa ter muito cuidado. Não queremos fazer como algumas cidades e estados que estavam avançando, reabriram e depois tiveram que recuar. Por isso a cautela e responsabilidade”, explica.

O secretário justifica o processo após Estado e Município terem sofrido críticas, no fim de semana, sobre a permanência das barracas de praia e bares fechados, assim como a não autorização para restaurantes abrirem durante a noite. Na Praia do Futuro, sábado e domingo, frequentadores e vendedores ambulantes ocuparam a faixa de praia sem obediência ao distanciamento social. Além disso, algumas barracas estavam funcionando. É diante desse risco de aglomeração e do repique ocorrido semana passada que Ataliba reforça que o plano deve ser revisto em todas as fases, com possibilidades de mudança.

“Ainda não se sabe se o aumento representa mudança no decréscimo nos registros dos últimos dias ou se é apenas uma situação pontual. Nos municípios mais populosos é mais difícil provocar o achatamento da curva. Abril e maio foram momentos críticos em Fortaleza. Infelizmente agora é em outros municípios. Por isso não podemos relaxar. Há provas de que a segunda onda e a terceira têm maior letalidade. Não podemos retroceder”, alerta o secretário.

Diante de certa incerteza, algumas atividades são sacrificadas, como o funcionamento das barracas de praia, dos bares e academias. Por outro lado, nesta fase em Fortaleza, já funcionam com capacidade máxima de trabalho presencial aas cadeias têxteis e de roupas, de comunicação, publicidade e editoração, de indústria e serviços de apoio, de artigos do lar, a cadeia agropecuária, a moveleira, a de tecnologia da informação, de logística e transporte, de comércio e serviços de higiene e limpeza, a automotiva e de comércio de outros produtos. Quando se fala em cadeia, incluem-se na liberação a produção, a rede de comércio envolvida e os serviços relacionados à atividade.

Sobre a reabertura das escolas, prevista para a fase 4 do plano, Ataliba esclarece que esse talvez seja o ponto mais complexo da retomada. Em São Paulo, há sinalização para reabertura em setembro ou outubro. Em Fortaleza, escolas particulares estão na expectativa de reabertura a partir do próximo dia 20 e as públicas, em agosto. Contudo, nada está definido.

“A atividade educacional online está funcionando e autorizada. Seguir os protocolos exigidos pela OMS (Organização Mundial da Saúde), de distanciamento de alunos, de quantidade de alunos por sala de aula, a forma de intervalo, tudo isso é de uma complexidade muito grande. Termos o entendimento de que nem todas as nossas escolas e universidades estão preparadas física e tecnologicamente, algumas vão exigir reformas, outras não têm espaço física para dividir uma turma de 40 alunos em duas salas de 20”, pontua o secretário. O perigo, na opinião dele, não é as crianças se contaminarem, mas contaminarem pais, tios, avós. “Vamos acompanhar, mas é uma questão muito complexa, que precisamos ter atenção. O estado só voltará com extrema segurança para não comprometer as condições de saúde e aprendizado do aluno e para não transmitir a doença para adultos”, garante.

Com atividades individuais ao ar livre e quase toda a cadeia produtiva em funcionamento, Flávio Ataliba reforça a necessidade do uso da máscara ao sair de casa para evitar a própria contaminação e de outras pessoas. “O que não queremos é aglomeração. Toda atividade de aglomeração tem alta probabilidade de contágio. As pessoas estão com a sensação de que a doença passou, mas ela só reduziu porque tivemos longos períodos de isolamento social. Se relaxarmos, o vírus pode voltar com velocidade ainda maior”, diz.

O secretário destaca que é importante saber que o cearense conviverá “por um bom tempo” com as atividades econômicas funcionando, mas se protegendo contra o vírus, até que surja uma vacina ou medicamento eficaz contra a covid-19. Ataliba reforça que ônibus lotados, saídas desnecessárias para o Centro quando a compra pode ser resolvida perto de casa são potenciais situações de contaminação nesse momento de retomada. “As pessoas só devem sair de casa quando for estritamente necessário. O mais importante de tudo é o apoio do governo, dos empresários, dos dirigentes. Empresários estão muito preocupados com seus funcionários e clientes, mas se o consumidor de um modo geral não tomar consciência de que tem que ter um comportamento diferente, não vamos avançar”, alerta o secretário.

Relaxamento
Com atividades individuais ao ar livre e quase toda a cadeia produtiva em funcionamento, Flávio Ataliba reforça a necessidade do uso da máscara ao sair de casa para evitar a própria contaminação e de outras pessoas. “As pessoas estão com a sensação de que a doença passou, mas ela só reduziu porque tivemos longos períodos de isolamento social. Se relaxarmos, o vírus pode voltar com velocidade ainda maior”, diz.

Restrições desagradam representantes de restaurantes e barracas de praia

Na semana passada, criou-se expectativa de que as barracas de praia voltassem a funcionar e que bares e restaurantes ampliassem o atendimento até 23 horas – hoje eles só funcionam até 16 horas. Mas a espera foi frustrada no sábado, com o anúncio de que as mudanças haviam sido retiradas da fase 3 de reabertura da economia em Fortaleza. Mesmo assim, o fim de semana foi de movimentação intensa na orla da capital. Na Praia do Futuro, onde as barracas estão fechadas há mais de 100 dias, vendedores ambulantes, frequentadores da orla, crianças e veículos dividiram espaço ao longo dos 7km daquela faixa de praia, sábado e domingo.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Ceará, Rodolphe Trindade, não era essa medida que o setor estava esperando ou que estava sendo ventilada pelo poder público. Nas várias reuniões que aconteceram ao longo das últimas semanas, o protocolo apresentado pelo setor foi construído no sentido de voltar a funcionar ou ter o atendimento ampliado mediante redução no número de casos, óbitos e de leitos ocupados. Segundo relato do prefeito e do governador, os índices reduziram, mas o risco de aglomeração prevaleceu na tomada de decisão.

“Ninguém estava esperando. O que foi acertado é que a retomada estratégica para chegar à fase 3 Fortaleza teria que estar com metade dos casos novos e de mortes por covid e 80% de ocupação nas UTIs. Estamos abaixo do esperado, melhor do que o anunciado. O plano era esse. Não adianta mudar as regras na última hora. Nós fizemos a nossa parte”, testifica Rodolphe. Sobre os vídeos divulgados na sexta-feira, com imagens de bares lotados no Rio de Janeiro, o presidente da Abrasel defende o setor.

“A aglomeração é fora dos bares. Além do mais, estamos cumprindo todos os requisitos aqui. Bairro de Fátima, Centro, Aldeota, Meireles, Varjota, Cocó, Papicu, Praia do Futuro e outros bairros das imediações estão todos fechados há 100 dias. Mas na periferia nunca parou. Em praias de cidades vizinhas está tudo funcionando. Só nós que obedecemos tudo desde o início estamos sendo penalizados”, ressalta.

Sobre a Praia do Futuro, que está com 2.000 trabalhadores diretos parados, ele aponta outras questões. “É um absurdo quem é formal ter que fechar e quem é informal poder trabalhar. Tem ambulante em toda a Praia do Futuro, e as barracas estão todas fechadas”, compara. Ele cita ainda o funcionamento da Feira da José Avelino como exemplo paralelo. “Parece terra de ninguém. Tudo lotado, aglomeração direto”, diz.

Na última semana, donos de restaurantes se prepararam para a esperada reabertura comprando material de limpeza, insumos, produtos perecíveis. De acordo com a presidente da Associação dos Empresários da Praia do Futuro, Fátima Queiroz, os empreendedores focaram esforços em limpar a estrutura interna e externa das barracas, fazer ações de dedetização e sanitização e abastecer os locais de trabalho. Dentre as 68 barracas em funcionamento, 55 são pequenos e médios negócios.

Além dos investimentos com material, os donos de bares, restaurantes e barracas estavam em processos de reformular as equipes de trabalho. “Tinha gente que ia voltar de férias, que não precisaria mais receber ajuda do governo, que queria e precisava muito voltar a trabalhar. Não só os funcionários. A maioria dos empreendedores não têm mais de onde tirar dinheiro para manter os negócios funcionando sem faturar. São mais de 100 dias”, frisa Rodolphe Trindade.

Em nota divulgada ontem, a Abrasel informa que a mudança na fase 3 é recebida com “repúdio, pois se dá de forma discriminatória, sem prévio diálogo ou explicação”. O documento alerta para a efetivação de mais demissões no setor e fechamento de estabelecimentos. Isso porque, a partir de hoje (6), sem MP 936, os colaboradores voltam com estabilidade de emprego de dois meses e as portas dos estabelecimentos estarão fechadas.

Horário reduzido permanece nos shoppings da Capital

Com o novo decreto, os shoppings, que estão com as lojas funcionando de 12 as 20 horas e as praças de alimentação até 16 horas, poderão colocar em atividade 100% dos funcionários. A medida, na opinião do presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) no Ceará, Wellington Oliveira, não faz muito sentido se os restaurantes e quiosques não podem vender para consumo no local depois de 16 horas e as lojas continuam fechadas por quatro horas (10 as 12 e 20 as 22). Segundo ele, não existe necessidade de chamar mais funcionário para trabalhar se o horário de funcionamento continuará o mesmo.

“Na verdade, não há impacto direto com o novo decreto. O que impactaria na questão econômica mesmo será a mudança de horário. Os lojistas não vão chamar mais gente para trabalhar se não precisa”, diz. Segundo Wellington Oliveira, o funcionamento dos shoppings está dentro do padrão esperado, sem intercorrências e com obediência rigorosa a todos os protocolos de saúde pública. Mesmo com um aumento semanal de 10% a 15% no movimento, o fluxo não é confortável para ampliar as equipes com o mesmo horário de funcionamento. “Estamos seguindo tudo para não ter retrocesso. Nossa preocupação é com a saúde dos clientes e funcionários, lojistas, colaboradores”, avisa. Mesmo com o incremento semanal, Oliveira informa que o funcionamento está dentro da capacidade de 30% dos estabelecimentos.

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