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Cientistas políticos e sociais comentam sobre postura negacionista do presidente Bolsonaro

Donald Trump e Jair Bolsonaro, durante coletiva na Casa Branca, em Washington, antes da pandemia. (Foto: Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press/Folhapress)

Cientista político e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (Lepem) do Observatório do Legislativo Brasileiro, João Feres Júnior pontua que, na medida em que Bolsonaro prioriza ações que negam ou minimizam o potencial do novo coronavírus, deixam de ser criadas políticas de ação contra a doença. “A postura do Bolsonaro, sem dúvida, reflete-se no aumento de contágio e, consequentemente, de mortes.”

Para o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jawdat Abu El Haj, há duas leituras que podem ser feitas. A primeira, segundo El Haj, é a de que os presidentes Trump e Bolsonaro consideram o novo coronavírus passageiro e com baixo potencial de infecção, fatores que os teriam levado a tratar a preocupação com a doença como exagerada, considerando as consequências políticas. “O desempenho da economia será negativo e por isso eles estariam minimizando.”

A segunda, afirma o docente, aponta para uma estratégia eleitoral para que popularidade de ambos se mantenha. “Ele tenta endurecer o núcleo que acaba tornando-se militância dele, comportamento irresponsável, pois os conflitos atingem a população em um momento em que se precisa de união diante de uma doença tão devastadora. A covid-19 pode virar sim uma ‘gripezinha’, mas em longo prazo. Em curto prazo, ela está custando vidas.”

Cientista política, Graziele Albuquerque pondera que o Brasil, apesar de ter tido condições de realizar ações com antecedência, não realizou. Para a jornalista, a relação de dicotomia entre saúde e economia é falsa e que dentro dessa máxima é dever dos estados adotar um papel fincado no keynesianismo, teoria econômica segundo a qual, dentro dos parâmetros do mercado livre capitalista, há necessidade de forte intervenção econômica do Estado. “Uma pandemia faz com que haja um comparativo por respostas do governo. Uma vez que líderes do Executivo deixam de dar tais respostas, a realidade vai nos forçar a questionamentos.”

Graziele argumenta que, nesta pandemia, o fenômeno negacionista não ficou atrelado somente à figuras políticas de direita e extrema direita e cita o presidente mexicano López Obrador, um dos que com de viés progressista. “É um fenômeno próprio de governos populistas. Quando se olha para os fatos, vemos que não é uma coincidência o alinhamento entre Trump e Bolsonaro e a maneira como os dois escolheram lidar com a pandemia, mas é importante ressaltar que não se relaciona somente à extrema direita.”

Sobre Bolsonaro voltar atrás diante da postura acerca da covid-19, a exemplo do que fizeram outros presidentes, Feres Júnior, El Haj e Graziele acreditam ser bastante improvável. “As atitudes dele medem que ele não vai voltar atrás. O presidente Bolsonaro continua jogando com um grupo específico de apoiadores.”

 

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