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Covid-19: Ceará está agindo com “bastante antecipação”, diz dr. Cabeto

O desenvolvimento de uma cadeia de negócios e de uma rede de estímulos à pesquisa e ao desenvolvimento local de tecnologias é tratado pela Secretaria da Saúde do Ceará como prioridade, afirma o titular da pasta, Dr. Cabeto Rodrigues. Este novo modelo, ainda em implantação, permitiu ao Estado agir com mais rapidez contra a epidemia de Covid-19, analisa o secretário

Tunay Moraes Peixoto
tunaympeixoto@ootimista.com.br

Até quinta-feira, 19, o Ceará contabilizava 24 casos confirmados do coronavírus, segundo boletim da Sesa (Foto: Divulgação)

Antes da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), que pegou o mundo de surpresa e bagunçou as prioridades pré-estabelecidas para a saúde pública em todas as partes do mundo, o Ceará preparava o redesenho do modelo de gestão dos seus equipamentos de saúde. Este passo é apontado pelo gestor da pasta, o médico cardiologista Carlos Roberto Martins Rodrigues, o Dr. Cabeto, como uma oportunidade para resolver os gargalos do setor. E de quebra, estimular uma cadeia de negócios relacionada ao setor de saúde.

Esta reestruturação teria permitido ao Estado agir com “bastante antecipação” aos efeitos da pandemia, para a qual Cabeto já garantiu que o Ceará está pensando as açõesa partir dos piores cenários. O secretário conversou com O Otimista sobre estar à frente do desafio de gerir a maior crise na área já registrada e dar continuidade a criação de uma fundação para gerir as unidades de saúde do Estado.


O Otimista – Fazendo um comparativo entre as ações tomadas pelo Ceará e a evolução da Covid-19, o senhor acredita que a situação aqui pode ser ainda mais grave, como a que passa estados como São Paulo ou Rio de Janeiro?

Cabeto Rodrigues – A gente acredita que não, mas pode chegar. Estamos agindo em várias frentes, não só a questão da prevenção, porque o isolamento social é fundamental, temos que bloquear os contatos públicos, e preparar a rede para atender, principalmente, os doentes mais graves. Estamos fazendo essas contingências com bastante antecipação, mas se trata de um vírus de fácil contaminação.

O Otimista – Existe previsão de ampliação dos recursos de enfrentamento da pandemia para além dos R$ 45 milhões já disponibilizados pelo Governo do Estado?
Cabeto Rodrigues – O Estado se organizou com esse recurso, mas também enviamos ao Ministério da Saúde uma solicitação de ajuda, de R$ 145 milhões, para dar suporte aos municípios. Além disso, mais R$ 20 milhões específico para custeio. O Estado está se organizando, existe um plano para o enfrentamento de crise, e outro assistencial, junto com a participação da sociedade, que é proteger os idosos e grupos de risco e praticar o autoisolamento.

O Otimista – Os hospitais regionais estão preparados para um provável aumento repentino de casos no interior?
Cabeto Rodrigues – Os hospitais regionais estão estruturados, as equipes preparadas e o número de leitos ampliado. Estamos tratando com os prefeitos sobre os procedimentos e transporte de passageiros, para evitar a contaminação intrahospitalar. Vários países que não se prepararam pra isso, quando se atentaram estavam em uma situação muito crítica. Um dos problemas que a gente tem visto em outros estados e países em crises anteriores, como a do SARS, foi a desorganização do processo de decisão, se a gente não centraliza, torna o sistema mais frágil.

O Otimista – De que forma vai se estruturar e qual será o impacto financeiro da fundação de saúde anunciada para gerir hospitais estaduais?
Cabeto Rodrigues – A fundação é uma atividade meio, vai assumir a gestão e a contratação de toda a rede hospitalar do estado, a priori, e governança das cinco regiões (Norte, Sul, Leste, Oeste e Sertão Central). Tem algumas vantagens, porque esse tipo de instituição estabelece uma forma de contratação por resultado, que é a grande modernidade hoje. Então, ao invés de contratar pessoas para fazer um número de serviços, estabelece um contrato, faz um corpo de executivos competentes, nomeados através de uma seleção adequada, e a partir disso estabelece um concurso público para todos os funcionários que vão trabalhar nas unidades. Ou seja, todos as atividades-fim têm contratação por concurso público e uma gestão em cima de resultado. Se estabelecem indicadores não só para aferir melhor os resultados, mas garantir um tipo de emprego melhor. As fundações têm muito mais versatilidade na contratação, de pessoal. E não tem propriamente um custo, é o custo da gestão, o resto é contrato de serviço. Não é uma coisa recente no Brasil, mas incorporando todo o sistema, o Ceará é o primeiro a fazer.

O Otimista – Como a fundação deve atuar no desenvolvimento de ciência e na formação de mão de obra da saúde?
Cabeto Rodrigues – Uma coisa muito importante no desenvolvimento tecnológico do Ceará é fazer tanto atração como a fixação de talentos, nacionais e internacionais, em instituições públicas e privadas, no que se refere a produção de pesquisa e tecnologia. É um veículo que está dentro de uma lei, de 2015, dos Institutos de Tecnologia e dos ICTs, e essa fundação vai incorporar isso. A outra vantagem é que em quatro anos vamos ter uma carreira única no Estado inteiro, então aquele problema do profissional da atenção básica que é contratado pelas prefeituras e tem seu vínculo precarizado, o Estado do Ceará está reorganizando o seu sistema para que os contratos saiam a partir dessa fundação. Isso implica funcionar meio como promotor e juiz, ou seja, você vai ter uma carreira, que tem avaliação de desempenho anual, tem as obrigações do funcionário no que se refere a indicadores de qualidade, indicadores de serviço e isso torna o sistema muito mais eficiente. No Ceará 80% dos profissionais de saúde têm relação de trabalho precarizada, ou estão em cooperativas ou em terceirizações. Outra coisa importante é ter um método ágil de compra, de logística adequada para a distribuição de medicamentos.

O Otimista – A atenção básica será impactada de que forma?
Cabeto Rodrigues – Vai impactar inicialmente na melhora da qualidade dos hospitais. A fundação vai ser importante, mas ela tem que vir junto com a disponibilização de formação para a atenção básica. Qual é a vantagem da fundação? Ter um atrativo, nós estamos ampliando o número de residências multiprofissional e na área médica na atenção básica, mas garantindo que essas pessoas, uma vez qualificadas, tenham uma carreira. Alguns países fizeram isso de uma maneira muito eficiente, como Portugal, que tem assessorado o Ceará neste último ano. Eles fizeram uma metodologia parecida com a nossa, mudaram o currículo da atenção básica, ajustaram, interiorizaram a formação, em seguida colocaram um plano de carreira para garantir que esse profissional tenha um plano a ser seguido durante todo o seu desempenho institucional. Para isso é muito importante a demonstração de resultados. Nós montamos uma metodologia, chamada Índice de Desenvolvimento Global, que está sendo testado agora nas policlínicas, nos consórcios, para em seguida a gente propor aos prefeitos que, em parceria com o Estado, façam melhorias na prestação desse serviço.

O Otimista – A economia da saúde será estimulada pela fundação que o Governo do Ceará está criando?
Cabeto Rodrigues – Essa fundação dinamiza um setor, que é a economia da saúde. Inclusive é mercado, estamos falando de aquisição de equipamentos tecnológicos, então essa fundação traz um pouco dessa estruturação para o desenvolvimento de startups, de ser incubadora de empresas para desenvolvimento tecnológico e soluções ou barateamento do custo da tecnologia. Tudo isto está dentro de um plano que pode mudar um pouco a realidade atual, é uma coisa de longo prazo, não se constrói uma coisa dessas para dar resultado em um ano ou dois, mas para ser uma política de estado, e política de estado precisa que se invista muito fortemente nas pessoas. Valorizar o trabalho e a qualificação é princípio fundamental para ter uma economia forte, uma indústria forte, para ter uma sociedade mais adequada, com menos desigualdade. A saúde entende que tem um papel fundamental, afinal de contas, estamos falando de 7% do PIB do Ceará. Sempre gosto de fazer essa comparação porque o turismo, por exemplo, só representa 3%, para que as pessoas tenham ideia do que é a economia da saúde.

O Otimista – Recentemente foi discutida com o Ministério da Economia parcerias para a área da saúde, com financiamento via BNDES. Como seriam essas parcerias com o banco?
Cabeto Rodrigues – Está se discutindo com o estado do Ceará uma série de produtos de inovação e de atração de empresas da área de saúde. Alguns executam esse ano, os outros nos próximos três anos. É importante o Brasil entender isso, que a gente tem que sair com uma economia mais dinâmica, mais moderna, que traga ao mesmo tempo mais qualidade de vida para as pessoas, que trabalhe urbanização, que trabalhe modelos de cidades, é muito oportuna a proposta que o governo está trazendo, está em absoluta consonância com o que o Governo do Ceará está fazendo quando optou por fazer investimento em educação e agora entra na área do fortalecimento das instituições, no nosso caso, as instituições de saúde.

O Otimista – Estes financiamentos podem beneficiar também os distritos de saúde e inovação?
Cabeto Rodrigues – Vamos ter dois polos iniciais, distritos de inovação em saúde, que são Porangabussu e Fiocruz, no Eusébio, mas já começamos os estudos para fazer mais um no Sertão Central, em Quixeramobim, e mais uma em Limoeiro do Norte, para que a gente interiorize o desenvolvimento. É fundamental que a gente tenha uma política de equidade em relação a investimentos e facilitação do deslocamento de pessoas para áreas com densidade populacional ou renda per capita mais baixa, para que a gente reduza esse deslocamento das pessoas e dos pacientes em busca de atendimento e de emprego. Acredito que a gente tem melhorado, mas essa metodologia pode colaborar muito. Quando você pensa na ambiência da saúde você está falando não só de hospital, mas de instituições como Fiocruz, Biomanguinhos, Instituto Pasteur, empresas que trabalham com biotecnologia, a parte de hotelaria, residência, infraestrutura urbana… O cuidado que a secretaria está tendo é fazer isso pensando não nas empresas, mas nas pessoas, em primeiro lugar. Os distritos de inovação têm essa característica, fazem inovação urbana, inovação social e inovação econômica. Essas coisas ficam absolutamente harmônicas quando se desenha um modelo como esse. Isso ajuda ajuda no desenvolvimento social, na redução da violência, tem muitos distritos do mundo que fizeram experiências similares. Esse ano o Ceará se associa a Associação Internacional de Parques Tecnológicos (IASP) e deve sediar ano que vem, se não o congresso todo, uma parte do congresso de cidades inteligentes que tradicionalmente acontece em Barcelona, no segundo semestre. Então são várias empresas europeias que estabelecem propostas de parcerias com o Estado do Ceará.

O Otimista – O Ceará também busca atrair outras empresas para consolidar estes polos. Quais são as tratativas em andamento?
Cabeto Rodrigues – Estamos conversando com algumas indústrias, como a Siemens, que vai fazer parceria com o Estado no que se refere a registro eletrônico de saúde; da Amazon, que está colocando um data center aqui e que tem a ver com a nossa indústria de dados; estamos em tratativas com outras indústrias, como a Medical Health Company, que é chinesa, e com uma indústria de fármacos, que chegou no Ceará. E a gente tem mostrado que é possível oferecer muito mais que incentivo fiscal. O Ceará está estudando o método de inovação. Primeiro para escolher o perfil de empresa, aquela que tem maior agregação de valor social, é muito importante ter isso. E segundo, a que tem a capacidade de aumentar o PIB per capita de uma maneira bem distribuída, isso também é muito importante para ajudar a reduzir os problemas sociais que a gente tem. É um metamodelo, vamos dizer assim, que inclui uma governança de distrito que estrutura a rede local, por um modelo de negócio, por um modelo de ocupação urbana, que não obedece ao modelo tradicional. Quando se vai pra dentro das cidades é preciso garantir que não se faça especulação imobiliária sem garantir acesso para as pessoas e empresas que já residem no bairro, por isso que tem uma legislação própria, para impedir a gentrificação. No Porangabussu estamos usando uma área que tem muito adensamento de produção de conhecimento e aproveitando para fazer uma requalificação urbana. O Ceará tem um enorme mercado interno, tem uma estrutura de saúde que funciona como atrativo para atração de empresas. O governador Camilo tem isso muito claro, é uma prioridade de governo e pode fazer o Ceará andar mais rápido.

O Otimista – O senhor avaliou a ida para a Secretaria da Saúde, após convite do governador Camilo Santana, por um bom tempo. Estruturou um modelo de renovação do sistema público de saúde e agora comanda uma crise sem precedentes. Como se sente, enquanto médico, com tantos desafios seguidos?
Cabeto Rodrigues – Eu tenho dito, mesmo antes dessa crise, que tenho um grande prazer como pessoa e como profissional poder colaborar com as pessoas. A gente tem procurado fazer uma rede de colaboração para transformar esse sistema e fazer com que as pessoas adotem como seu, para que entendam o quão importante é. E nessa crise esse sentimento se fortalece, acho que todo profissional de saúde carrega em si um sentimento de colaboração. Eu acho que é a hora de colaborar mais ainda, ninguém gostaria de passar por ela, mas vamos superar essa crise com estratégia adequada, com conhecimento científico, mas também tendo noção humanística na decisão, não é uma crise só de saúde, mas social e precisamos que todos os setores participem desse momento, que sejamos mais humanos. É o momento de entender que todos nós somos muito importantes nesse processo, de aprimorar a qualidade do atendimento, de ser mais humano, de confortar mais as pessoas e fazer com que elas se sintam protegidas e seguras.

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