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Esperança, gratidão e alento no voltar para casa

Brasileiros espalhados por vários países contam que tiveram que abandonar sonhos e planos para retornar ao Brasil diante do cenário devastador do novo coronavírus. Mais de 25 mil pessoas voltaram  ao País pelo processo de repatriação, segundo o Itamaraty

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Natural do Espírito Santo, Luciana diz que sair da índia foi uma experiência de desapego Foto: Arquivo pessoal

Embora estivessem morando em diferentes países, Lucas Bernardo, Luciana Fiel e Ivan Fiuza vivenciaram experiências semelhantes: a repatriação. Medida adotada em inúmeras nações para conter o avanço da covid-19 nos respectivos territórios, o fechamento da fronteira impossibilitou a entrada de possíveis infectados, mas, por outro lado, barrou estrangeiros de regressarem aos seus países de origem.

Os decretos de isolamento social e lockdown reforçaram o movimento, fazendo trabalhos, planos, sonhos e relacionamentos serem interrompidos bruscamente. A solução para três brasileiros que estavam no Exterior foi retornar para o Brasil e esperar a situação abrandar-se.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE), até 24 de maio deste ano, 25.737 brasileiros impedidos de voltar ao Brasil foram repatriados. Até a referida data, 1.400 haviam solicitado pedido semelhante e aguardavam voos para o fazer o mesmo caminho. A pasta federal criou também o Grupo Especial de Crise para auxiliar cidadãos impedidos de voltar ao País devido a medidas de restrição à circulação e cancelamentos de voos de companhias aéreas.

De volta a Fortaleza
Na memória, o professor Ivan Fiuza, 36, guardava Fortaleza como a cidade das férias e dos momentos felizes. Ao retornar, no dia 9 de maio, em um voo de vindo da Colômbia, encontrou um cenário bem diferente. Fiuza estava fora do País para concluir um mestrado desde 2018. Das coisas que construiu, conseguiu trazer apenas poucas malas. Não foi possível despedir-se dos amigos colombianos.

Natural de Fortaleza, o professor passou dois meses em isolamento até decidir que o Brasil era a melhor opção. Fiuza foi informado pelas autoridades que um voo de repatriação com 250 brasileiros havia saído da Colômbia na semana anterior. Em virtude do atraso, o cearense teve que custear a própria viagem, fazendo percurso em um voo destinado a buscar colombianos que estavam no Brasil. “Passei por isso e aprendi que, estando dentro do Brasil, a gente não percebe como temos um senso de comunidade apurado. A postura histórica do Brasil de pagar os custos da viagem de repatriação me fizeram ver que ainda há bastante luz”, define.

Também natural da Capital, Lucas Bernardo, 29, deixou a Austrália, temporariamente, quando a saudade da família falou mais alto. “Por estar próximo da família e amigos, as coisas ficam mais leves. Está havendo novo aumento de casos na Austrália, e me sinto aliviado de estar aqui”, descreve. O pesquisador entrou em contato com o Consulado do Brasil em Sidney em 13 de junho e, dois dias depois, conseguiu ser encaixado em um voo de repatriação, no qual embarcou no dia 18 do mesmo mês.

“Houve bastante preocupação por parte do Consulado. Eles conseguiram um psicológico para eu me consultar e se dispuseram a fornecer medicação, remédios e estadia caso fosse preciso”, acrescenta. Em virtude do isolamento, Bernardo começou a ter crise de ansiedade e indícios de depressão.

Amor e pertencimento
Durante cinco anos, a terapeuta quântica Luciana Fiel visitou a Tailândia, Dubai e morou na Índia. “Viajei para buscar autoconhecimento e me capacitar como profissional”, explica. Natural do Espírito Santo, Luciana havia acabado de chegar na Tailândia, quando recebeu a notícia de que as fronteiras da Índia estavam fechadas por conta do cenário pandêmico.

“Não pude voltar para à Índia e acabei tendo que doar quase todos os meus pertences, o apartamento e não pude dar continuidade ao relacionamento que deixei na Índia. Foi uma das maiores provações que já vivi”, define. Luciana precisou ficar em Bangkok, capital da Tailândia durante um mês, até que pudesse retornar ao Brasil em um voo de repatriação.

A terapeuta esteve junto de 385 brasileiros, distribuídos na Indonésia, Tailândia e Vietnã. “Foi o melhor voo que fiz na vida. Uma viagem de gratidão e esperança por estar voltando para casa. Foi um voo histórico, em um momento histórico da nossa sociedade”. “É uma sensação de pertencimento, o Brasil foi me buscar”, completa.

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