Jornal Impresso

O Ceará e o desafio de lidar com a cólera na década de 1990

Alta densidade demográfica e ausência de saneamento básico foram razões para que a doença tomasse proporções dentro e fora do Brasil. No Ceará, a pandemia iniciou após vinda de viajante de Amazonas a Quixadá

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Foto: Reprodução/Tibor Jablonsky/IBGE

O histórico do Ceará na luta contra pandemias vem desde o século XX. Registro oficial da cólera, que afetou, além da América, Ásia, África e Europa, é datado de 1992 em território cearense. Se com o Sars-Cov-2 as viagens contribuíram para proliferar o vírus, com a bactéria Vibrio cholerae não foi diferente.

A médica Anamaria Cavalcante conta que um viajante vindo do Amazonas para visitar familiares, com destino ao município de Quixadá, distante 172 quilômetros de Fortaleza, foi o responsável por transmitir o vírus.

À época titular da Secretária da Saúde (Sesa) estadual, Anamaria rememora que começou a receber registros de muitas pessoas acometidas com diarréias, doença até então registrada majoritariamente em crianças. “Quando vimos que a situação era muito grave, decidimos transferir a sede da Secretaria para Quixadá. Embora tivesse um hospital, a cidade não estava dando conta de debelar o problema”, detalha.

Linha do tempo
Doença de veiculação hídrica, a cólera foi trazida do Peru e acabou infectando rios que percorrem a região Norte do Brasil. De acordo com o Manual Integrado de Vigilância Epidemiológica da Cólera, publicado em 2010 pelo Ministério da Saúde, os primeiros casos foram registrados no Brasil em abril de 1991, justamente no estado do Amazonas. Com o passar dos anos, confirmações foram se concentrando no Nordeste.

O documento mostra que, no ano de 1994, havia 51.324 casos registrados no País, sendo 49.276 somente em estados nordestinos. Anamaria lembra que, diferente da praticidade atual, quantificar casos se traduzia como um dos principais desafios da epidemia do cólera.

“Começamos a fazer o monitoramento diário dos casos, a idade, o sexo e histórico de saúde para saber como a doença se comportava.” Os principais sintomas eram diarreias, náuseas e vômitos frequentes, que levavam à desidratação e deterioração progressiva da circulação de água e minerais no corpo. O protocolo de tratamento da doença se mantém, segundo o ministério, priorizando o tratamento precoce, fazendo reidratação por meio de líquidos e solução com sais de reidratação oral.

Condições precárias de saneamento básico, consumo de água sem tratamento, precarização das condições de higiene e ingestão de alimentos sem manipulação adequada foram fatores que contribuíram para maior disseminação. A alta taxa de salinização da água disponibilizada aos municípios fazia com que moradores recorreram à cacimbas e cisternas. Segundo documentos da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de 1994, 98% destes reservatórios fortalezenses apresentaram índice elevado de coliformes fecais.

Linha de frente no combate à cólera no Ceará
De acordo com o historiador Renato Freire, entender a dinâmica de Fortaleza durante o período é fundamental para acompanhar consequências da doença. “Fortaleza foi uma cidade que cresceu muito na segunda metade do século XX. Muitas famílias vinham do interior para cá e as administrações públicas se depararam com o problema de resolver esse adensamento populacional. A própria estrutura urbana de Fortaleza não ajudava a combater a doença”, explica Freire.

As barreiras de acesso ao conhecimento foram  as aspectos de dificultaram resolução do problema, aponta. “Um dos grandes problemas da década  de [19]90 era a mortalidade infantil, contribuindo para subnotificações da doença.”

Atenção básica
À época, agentes de saúde foram as figuras responsáveis por erradicar a cólera do Estado. “Não havia ainda o Programa Saúde da Família para atender esses pacientes na atenção primária”, explica Anamaria. Segundo a médica, a salvação para a doença foi a utilização do soro oral, que havia sido descoberto em Bangladesh.

“Quando o Brasil também adotou a medida dos agentes, no governo do Fernando Collor, nós já tínhamos quatro mil agentes de saúde no Ceará, eles salvaram muitas vidas.”

Segundo o Ministério da Saúde, o último ano com maior registro da doença aconteceu em 1999. O último caso registrado no Nordeste foi notificado em 2005, entretanto, a erradicação nacional ocorreu em 2006.

mais
Este conteúdo abre série semanal que totaliza cinco reportagens acerca de pandemias que o Ceará já enfrentou.

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS