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Para especialistas da USP, isolamento social segue como melhor forma de conter a doença

Presidente da Associação Brasileira de Saúde Pública reitera a afirmação e refuta isolamento vertical, bem como ideia de que atletas sejam menos acometidos pelo novo coronavírus. Governo, Prefeitura e Aprece dizem que quarentena continua

Danielber Noronha
panorama@ootimista.com.br

Estudiosos defendem isolamento horizontal para prever número de casos. Fortaleza tem pouca movimentação nesta semana (Foto Edimar Soares)

O recente posicionamento do Governo Federal no sentido de que os brasileiros voltem à normalidade, sugerindo o fim do período de isolamento social em que o País encontra-se devido à pandemia pelo novo coronavírus (Covid-19), não é convergente com o que apontam especialistas e entidades de saúde.

Segundo o pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-UPS), Luiz Gustavo Góes, a reclusão social é a única forma de diminuir a velocidade de propagação do vírus. “Uma pessoa com o vírus pode passar para outras duas. Conforme previsões baseadas na taxa de reprodutividade viral, chegaremos a 80 mil casos em dois meses. Sem o isolamento social, não dá para prever como será esse número”, aponta o virologista e especialista em coronavírus. Góes pondera que 5% desses casos devem ser graves, dificultando ainda mais o tratamento e levando à crise do sistema público de saúde.

Para Gerson Salvador, infectologista do Hospital Universitário de Saúde Pública da USP, o isolamento continua sendo a melhor forma de mitigar os efeitos da epidemia, fazendo os casos surgirem de maneira mais lenta. “Neste momento de crescimento exponencial, onde casos têm dobrando a cada três dias, se fizermos intervenções adequadas, em cerca de duas semanas, poderemos notar mudanças na curva de casos.”

De acordo com Góes, o alto índice de pessoas que habitam nas periferias é fator que pode fazer os índices subirem ainda mais após o abandono da medida de segurança estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A fala vinda do Palácio do Planalto na terça-feira (24) repercutiu também entre as entidades de saúde pelo País.

A presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gulnar Azevedo, sugestiona que as pessoas continuem seguindo as recomendações da OMS. “A Abrasco entende que o distanciamento social é a medida mais importante que temos de fazer neste momento. Depois, nós recuperamos a economia. Não dá para recuperar vidas. No momento, estamos mais preocupados em preservar vidas”, enfatiza.

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) emitiu nota em relação ao ocorrido. No documento, a instituição lança luz sobre o crescente número de casos da doença pelo mundo, registrando mais de 420 mil confirmações e quase 19 mil mortes.

Isolamento vertical
Durante encontro com jornalistas da manhã de ontem (25), o presidente anunciou que estuda medidas para reformular o modelo de isolamento social vigente atualmente, o horizontal. A ideia é aplicar o isolamento vertical, onde apenas idosos e portadores de comorbidades fiquem reclusos do convício social, fazendo o restante da população retomar as atividades diárias.

A presidente da Abrasco classifica a medida como ineficaz. “Essa medida não é correta, pois muitas pessoas vão estar nas ruas e serão infectadas mais facilmente. Além disso, não teremos mais controle algum”. Seguindo essa linha, o pesquisador Góes pondera que o controle vertical vai expor ainda mais as pessoas, aumentando as chances de disseminação do vírus.

Para ambos, a afirmação de que esportistas poderiam não manifestar os sintomas da Covid-19, como dito pelo por Jair Bolsonaro, é equivocada. Góes afirma que o argumento não tem fundamento científico. “É claro que pessoas com histórico de atividades físicas têm maior resistência a doenças, mas ainda não existe nenhuma comprovação em relação a este coronavírus, por se se tratar de uma doença muito nova.”

Proteção dos cearenses
Após o pronunciamento, gestores do Ceará anunciaram que irão manter as medidas recomendadas pela OMS, já em vigor. “Da parte do Governo do Estado, continuaremos fazendo todos os esforços possíveis para buscar a proteção dos cearenses”, anunciou o governador Camilo Santana em suas redes sociais.

Prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio também usou as redes socais para manifestar que a Capital seguirá atuando com as medidas já estabelecidas para contingenciar a doença. “Estamos certos de que o caminho que tomamos é o melhor e mais correto para garantir o maior valor de uma sociedade, a proteção à vida humana.”

A Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece) também divulgou nota afirmando que a preocupação atual é conter os efeitos do vírus, continuando o cumprimento das medidas de isolamento social.

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