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Postura negacionista de governos agrava a pandemia

Estados Unidos, Brasil e Rússia lideram em número de casos confirmados de  covid-19 no mundo. Os três países têm presidentes que minimizam a doença

Kelly Hekally
kellyhekally@ootimista.com.br

Há pelo menos seis meses, o mundo convive com um vírus cujos estragos não encontram precedentes na história dos últimos 100 anos. Um dos irrefutáveis vilões na pandemia de covid-19 foi a postura negacionista – ainda que a princípio – adotada por governos de países como México, Reino Unido e Itália. Na última semana, o Brasil, que passou nesta sexta-feira (22) ao posto de segundo com mais registros da doença, somou-se a Estados Unidos e Rússia na lista tríplice de países com mais infectados pelo novo coronavírus.

Nessas três nações, onde a doença chegou em meio a alertas mundiais sobre os efeitos nefastos do vírus, a postura oficial do Governo foi de minimizar a crise sanitária em detrimento da ciência. Até o fechamento desta edição, EUA, Brasil e Rússia e Brasil somavam 1.644.244; 330.890; e 326.448, nesta ordem.

Epidemiologistas e cientistas políticos e sociais argumentam que os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro encamparam, e assim o seguem, atitudes que confrontam a maneira apontada pela ciência para combate à pandemia. Em março último, a União Europeia acusou em documento oficial a mídia estatal russa de empregar campanha desinformativa contra os reais efeitos da covid-19. O Kremlin, governo russo, chamou as alegações de infundadas.

Visão epidomiológica
Infectologista e especialista em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), Gerson Salvador afirma que as posturas de Trump e Bolsonaro foram decisivas para que EUA e Brasil chegassem ao atual quadro de infecções. Para o médico, ambos menosprezaram o impacto da doença e não tomaram medidas estruturantes nas primeiras semanas da doença, potenciais para terem modificado as curvas de contaminações.

“No Brasil, houve verdadeiro boicote de setores do Governo Federal a estados e municípios.” Segundo o médico, a ausência de organização assistencial voltada a casos mais graves da doença pelo Ministério da Saúde é também um agravante. “Estamos em curva descontrolada de ascendência. A tentativa de combate da parte do presidente Bolsonaro está se dando com a indicação de um remédio sem respaldo científico.” Na última semana, o Ministério da Saúde passou a dar aval para que fármacos como cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina fossem sugeridos logo no começo do tratamento de pessoas com a covid-19.

Professor titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Henrique Pereira menciona que o Banco Mundial publicou pesquisa recente apontando que, entre os países da América Latina, o País foi o que mais demorou para agir contra a pandemia. “O Brasil foi o que mais tardou para tomar medidas. Países que optaram por lockdown, por exemplo, colheram os frutos logo e inclusive tiveram suas atividades econômicas voltando mais rápido. Os que rumaram para medidas de restrição escalonada acabaram atingindo números difícieis”, explica.

Pereira argumenta que Bolsonaro, enquanto chefe de governo da União, possui a missão de coordenação, uma vez que as decisões estão fortemente concentradas nas mãos de governadores e prefeitos, e que em razão do escalonamento o papel de Bolsonaro como presidente é, sobretudo, atuar na injeção equilibrada de recursos com base na incidência da doença em cada unidade federativa. “Se ele não atua organizando e sim de forma contrária a governos locais parcela da sociedade que concorda com ele vai agir à revelia.”

Segundo o pesquisador, estudo em andamento sobre o deslocamento urbano durante o isolamento social em Manaus mostra que nos domingos em que ocorreram manifestações pró-Bolsonaro houve índices mais altos de aglomeração. “Domingo é realmente de movimentação. Não é possível atribuir o aumento de casos observados dias depois às manifestações em si, mas claro não há dúvidas de que uma aglomeração, ainda que tenha 40 ou 50 pessoas, é um pico de transmissibilidade.”

Perspectivas sociais
Cientista político e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (Lepem) do Observatório do Legislativo Brasileiro, João Feres Júnior pontua que, na medida em que Bolsonaro prioriza ações que negam ou minimizam o potencial do novo coronavírus, deixam de ser criadas políticas de ação contra a doença. “A postura do Bolsonaro, sem dúvida, reflete-se no aumento de contágio e, consequentemente, de mortes.”

Para o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jawdat Abu El Haj, há duas leituras que podem ser feitas. A primeira, segundo El Haj, é a de que os presidentes Trump e Bolsonaro consideram o novo coronavírus passageiro e com baixo potencial de infecção, fatores que os teriam levado a tratar a preocupação com a doença como exagerada, considerando as consequências políticas. “O desempenho da economia será negativo e por isso eles estariam minimizando.”

A segunda, afirma o docente, aponta para uma estratégia eleitoral para que popularidade de ambos se mantenha. “Ele tenta endurecer o núcleo que acaba tornando-se militância dele, comportamento irresponsável, pois os conflitos atingem a população em um momento em que se precisa de união diante de uma doença tão devastadora. A covid-19 pode virar sim uma ‘gripezinha’, mas em longo prazo. Em curto prazo, ela está custando vidas.”

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