Economia

Setor de saúde aprimora medidas de biossegurança para o pós pandemia

No comércio, as farmácias foram pioneiras em medidas de biossegurança. Nas clínicas que mantiveram atendimentos de emergência, os protocolos foram reforçados e a expectativa é de que sejam incorporados à nova rotina junto aos pacientes

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

O setor de saúde, durante a pandemia do novo coronavírus, manteve o funcionamento e foi um dos primeiros a adotar métodos de biossegurança, quando as medidas ainda estavam sendo estudadas para implementação. Servindo de referência, estabelecimentos como farmácias, clínicas e lojas hospitalares não apenas mantiveram as atividades como, em alguns casos, aumentaram os negócios e a movimentação em até 45%.

De acordo com o presidente da Federação do Comércio do Ceará (Fecomércio), Maurício Filizola, redes de farmácia com alcance regional e nacional chegaram a movimentar entre 40% e 45% a mais durante a pandemia. Embora o índice não tenha sido regra no mercado, o aumento nas vendas se deve, na visão de Filizola, à utilização dos meios digitais para vender. Nesse sentido, como as farmácias historicamente já possuem trabalho sedimentado de entrega em domicílio, a ampliação no atendimento a demanda foi natural não apenas pela procura maior de produtos relacionados à saúde, mas devido a uma rede já estruturada de trabalho que envolve cadastros digitais, agilidade no processo e serviços de entrega já estabelecidos antes da pandemia.

Segundo a Associação Brasileira das Redes de Farmácias (Abrafarma), entre fevereiro e março de 2020 as vendas de e-commerce cresceram 85,36% no setor. No acumulado de janeiro a abril, o aumento foi de 72% em relação ao mesmo período de 2019. Isso porque, segundo a instituição, até 2019, menos de 1% das vendas eram online e cerca de 80% das redes não disponibilizavam esse tipo de serviço. Com as vendas pelos sites, aplicativos, telefone e Whatsapp, o salto que era esperado para cinco anos aconteceu em meses.

Crescimento

Esse crescimento só não se configurou nos estabelecimentos localizados dentro de shoppings. Como os centros comerciais só reabriram no início de junho, farmácias nesses espaços fechados de compras não tiveram a mesma resposta positiva dos localizados em ruas e avenidas. “Não compensava para o shopping nem para o estabelecimento, porque as pessoas estavam com receio de sair de casa, ainda mais para um shopping”, pondera Maurício Filizola.

Mas, ainda assim, quem abriu e permaneceu funcionando durante todos os meses de isolamento social serviu de espelho em relação aos protocolos e contribuiu na efetivação de métodos de biossegurança de outras atividades. “O uso de álcool gel, de termômetro, a manutenção da distância de dois metros entre funcionário e cliente e entre os colaboradores, tudo isso foi construído lá atrás. Quem começou primeiro aprendeu primeiro também. Ainda estamos em uma situação de pandemia.  Esses aspectos continuam sendo importantes. Cabe ao consumidor tomar consciência, se cuidar e proteger outras pessoas. Os estabelecimentos continuam fazendo sua parte, que é proteger seu time interno e garantir proteção para o cliente”, ressalta.

Na opinião do presidente da Fecomércio, muitos hábitos permanecerão em um momento de pós-pandemia, mesmo com a criação de uma vacina que imunize contra o novo coronavírus. Isso vale, principalmente, para o comportamento do consumidor. “Ele está mais atento à parte de higiene, pessoal e do ambiente que ele visita. Além disso, está com outros hábitos de consumo. O fato de ter ficado mais isolado modificou a maneira de consumir. Esse consumidor está mais preocupado com a história e o propósito da empresa, com a sustentabilidade”, comenta.

Em relação às empresas, o legado refere-se principalmente à importância dada à área de tecnologia da informação. Em geral, soluções que demorariam meses ou mesmo anos para acontecer precisaram ser aplicadas de imediato. “Daqui para a frente, o consumidor vai valorizar aquela empresa ou negócio que esteve mais presente, mas perto, inclusive fisicamente”, diz. Maurício Filizola se refere à preferência do cliente por produtos e serviços locais.

Com base nisso, a campanha Compre do Ceará, lançada em junho para ajudar na retomada da economia local, incentiva consumidores a escolherem algo feito no Estado, com o objetivo de fazer circular a cadeia produtiva interna, em paralelo ao retorno das atividades na indústria, comércio e serviços. A iniciativa é uma parceria da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), Fecomércio, Serviço Nacional do Comércio (Senac), Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Ceará (Fetrans) e Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec). “Aderir a esse movimento é importante para dar ao mercado o crescimento sustentável. Se o consumidor tem esse cuidado especial e valoriza as empresas locais, faz o dinheiro circular e a economia se estabelecer com mais rapidez. É mudança de hábito. Se a pessoa vai para o supermercado, pode procurar saber onde o produto é feito, se é daqui, de repente trocar, experimentar algo nosso. Isso torna o crescimento sustentável”, ensina.

Para Filizola, os desafios continuam sendo o acesso ainda restrito ao crédito e a liberação de atividades importantes para a economia local, como o setor de eventos. “Se as igrejas foram liberadas, por que os eventos, com todos os protocolos sendo aplicados, não são também?”, questiona. Para o presidente, as iniciativas federais para disponibilizar crédito ainda são escassas para a demanda existente. “Quem mais precisa são os micro e pequenos, que são 90% dos negócios locais. Eles movimentam a economia, garantem a empregabilidade e, consequentemente, o consumo”, informa.

Clínicas mantiveram atendimentos de urgência

Na área de saúde, não somente os casos relacionados a sintomas de covid-19 requereram manutenção dos atendimentos, por se tratar de serviços essenciais. Clínicas médicas e odontológicas mantiveram serviços para atender com horário marcado e situações de emergência. Com movimento restrito, cuidados redobrados e protocolos internos de segurança sanitária, esses estabelecimentos devem incorporar métodos de biossegurança, mesmo finda a pandemia.

De acordo com o dentista Adriano Abreu, que tem 26 anos de experiência na área, as mudanças que ainda estão acontecendo moldam novas formas de trabalho. “Adquirimos equipamento de ozônio, exaustor, fazemos a descontaminação todo dia. Além disso, usamos todos os equipamentos de segurança individual. Se antes a gente usava um jaleco, hoje quando no consultório toda a roupa é trocada por um pijama cirúrgico e jaleco descartável. É uma nova realidade, isso não deve mudar, é avanço”, indica.

Além disso, o profissional afirma que o paciente está mais atento e exigente com os protocolos. Por isso Adriano Abreu acredita que muitas das recomendações oficiais devem permanecer na rotina do consultório odontológico. Tanto para proporcionar mais segurança para profissional e paciente como porque o comportamento de ambos não é mais o mesmo. “Algumas pessoas chegaram a chorar aqui na minha cadeira, por medo, estresse. No começo só vinham por uma necessidade muito grande, mas à medida que os dias foram passando, o paciente foi se sentindo mais seguro, vendo como tudo está funcionando aqui, a partir do momento em que ele entra no elevador do prédio, na clínica. Acredito que isso se mantenha, porque está todo mundo procurando cuidar mais de si e, consequentemente, do outro”, reflete.

Segundo ele, utilizar as redes sociais como aliadas nesse processo é fundamental. Através dessas ferramentas os pacientes estabelecem primeiros contatos, tiram dúvidas e observam aspectos da conduta do profissional. Com 96,6 mil seguidores e postagens contantes sobre serviços e orientações em saúde, Adriano Abreu atribui à comunicação digital com o paciente e seguidores a movimentação constante no consultório durante a pandemia. “O mundo virou digital do dia para  a noite. Quem já estava no digital saiu na frente. Não vou dizer que estou com as três salas preenchidas o tempo todo, mas duas, sim”. Com base nessa resposta, o dentista pretende fortalecer essa modalidade de comunicação com os pacientes. “Não fazemos consulta, mas estabelecemos um primeiro contato, damos atenção, respondemos às perguntas feitas no direct e no feed”, diferencia.

Essa forma de buscar um profissional de saúde Adriano Abreu conta que vinha sentindo desde 2010, quando começou a utilizar ferramentas digitais para o trabalho. “Isso não é novo, mas se potencializou agora. O profissional vai ter que ser mais versátil, não só tecnicamente, entender de mais áreas para se comunicar ou contratar serviços”, orienta.

Fechada por apenas 15 dias, a clínica do profissional voltou a atender devido a demandas de urgência, como tratamentos de reabilitação, uso de próteses provisórias, dores, manutenção de serviços em periodontia e implante. De início, o dentista lembra que os pacientes chegavam com muito medo e alto nível de estresse acumulado durante o isolamento social. “Cuidamos para os pacientes sequer se cruzassem nas recepções. Organizamos horários, mantivemos o distanciamento com os funcionários. Muitos profissionais demoraram a voltar porque é um contato quase íntimo. O receio é de ambos os lados, mas, com cuidados, podemos dar segurança e nos sentir seguros também”, diz.

Adriano Abreu alerta ainda que a pandemia tem causado problemas emocionais às pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em alguns países houve aumento de até 45% nas taxas de depressão e ansiedade, situações causadas em razão do isolamento social. Doenças assim interferem, inclusive, nos tratamentos odontológicos. “São pessoas que estão muito tempo dentro de casa e começam a desenvolver processos de apertamento dentário, o chamado bruxismo. Estamos recebendo um número grande de pacientes com esses problemas, mesmo aqueles que estão com a prótese habilitadas há pouco tempo. São muitas as lesões que podem ser causadas pelo apertamento dos dentes, associadas ao consumo do álcool que tem aumentado nesse tempo e ao estilo de vida”.

Ainda segundo o especialista, muitos pacientes começam a desenvolver inclusive medo de voltar ao dentista. “O medo de retornar ao dentista também é uma questão desenvolvida após tanto tempo sem sair de casa. Ir ao dentista virou quase uma relação de pânico. As pessoas chegam assustadas e receosas com o que vão encontrar. É medo do procedimento e de encontrar outros pacientes”, explica Abreu.

Restrições impactaram negócios no início

Depois que os primeiros casos de covid-19 foram confirmados no Ceará, em 2 de março, os dias seguintes foram de medo e indefinições para a maior parte da população. A busca por álcool em gel, máscaras descartáveis e luvas levou à falta dos produtos no comércio. À medida que surgiam nomes de medicamentos utilizados nos ainda incertos métodos de tratamento, aconteciam novas corridas aos estabelecimentos. As vendas só não foram maiores porque faltou produto no mercado e porque a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringiu a comercialização de alguns remédios à apresentação de receita ou à utilização apenas em hospitais e unidades de saúde.

Segundo o presidente do Sindicato do Comércio Varejista dos Produtos Farmacêuticos do Estado do Ceará (Sincofarma), Antonio Félix, em paralelo, as instâncias governamentais passaram a exigir procedimentos de segurança que, com o tempo, foram-se tornando mais restritivos. “Isso fez com que as farmácias saíssem na frente com os próprios cuidados, para proteger funcionários, colaboradores e clientes”, relembra o presidente.

Nas cerca de 1.400 farmácias da Região Metropolitana de Fortaleza, que empregam uma média de 16.800 funcionários, a aumento nas vendas não foi generalizado. “Quando todo mundo estava procurando vitaminas, zinco, álcool em gel, máscara e alguns medicamentos, os produtos estavam faltando. Até porque alguns passaram a ser dispensados só pelo governo”, informa Félix. Além disso, ele afirma que as vendas só não foram maiores porque é proibida a publicidade de medicamentos que exigem receita médica. Mesmo assim, ele acredita que a incrementação dos serviços de entrega atendeu à demanda da população. Antonio Félix acredita que, nessa área, a contratação aumentou 5% durante a pandemia.

“Não é só um comércio. Lidamos com vidas. Muitas vezes o paciente que chega à farmácia está vindo do hospital com o dinheiro contado, um elevado grau de estresse e a necessidade urgente de cuidar da saúde”, diz. Diante dessa situação, que se potencializou durante a pandemia, Antonio Félix defende o atendimento humanizado e o servir. “Tem que ter muito cuidado e critério. Não pode simplesmente indicar o remédio. Tem que pensar na saúde do cliente”, recomenda.

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