Opinião

Editorial – O Carnaval e as Forças Armadas

O Otimista
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E o Carnaval foi salvo pelas Forças Armadas. Ao menos em parte, já que alguns municípios já tinham cancelado suas festas até a tarde de ontem e que Fortaleza já contava com Guarda Municipal e Força Nacional para realização do evento. Com o Exército, homens preparados para a guerra atuam para que que civis brinquem nas ruas. Fardas entre fantasias, fuzis sob glitter. Uma contradição necessária para garantir segurança e, até mais, sensação de segurança.

Neste País, Carnaval é coisa séria. Só a indústria do Turismo projeta faturar R$ 8 bilhões com a festa, cifra na qual o Ceará responde pela quinta maior fatia. Para 2020, a expectativa é de que o Estado supere a marca de 140 mil turistas. Eles se unem a locais, que, neste período, experimentam uma relação única com suas cidades. São dias de ocupação saudável das ruas, de andar a pé, de viver locais históricos difcilmente visitados, de ouvir artistas da terra, de confraternizar com desconhecidos.

É uma festa de resistência às mazelas urbanas – até ao coronavírus -, mas abalada pelo risco da falta de policiamento. Ou, pior, pela ameaça direta de quem deveria fazer o policiamento. Afinal foram policiais militares que atiraram num senador da República, que passaram pelas ruas ordenando o fechamento do comércio, que arrancaram policiais civis de suas viaturas.

Agem como as facções criminosas contra as quais heroicamente lutaram há pouco mais de um ano. Essas laranjas podres – cuja punição é fundamental para preservar a corporação – encontraram terreno fértil: uma politicagem beligerante que tem respaldo no discurso do Planalto e em bancadas das casas legislativas. Simbólica a declaração do presidente ao anunciar a atuação do Exército nas ruas do Ceará: “o bicho vai pegar”.

Isso fortalece lideranças escusas, ou o lado obscuro de quem fala pela categoria. Ora, o aumento salarial dos militares fora acordo fechado entre seus representantes e o Governo. Mas homens encapuzados – e armados – decidiram que não era o suficiente.

A solução é delicada, ainda mais diante da pressão social por segurança, que incha tropas dispostas a atirar em quem são contratados para proteger. Valorização e instrumentos legítimos de negociação são medidas de longo prazo. Antes, é preciso identificar e punir os insubordinados.

Tudo isso requer o controle do Estado, que, por enquanto, é reforçado por um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Uma medida emergencial acertada, mas que não deve ser encarada como corriqueira.

Que haja Carnaval.

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