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Há perigo na esquina (reflexões feministas)

Katarina Brazil

Após o pronunciamento do presidente Bolsonaro, no último dia 25, lembrei-me do verso “há perigo na esquina” da canção “Como nossos pais”, de Belchior. Com o avanço do coronavírus no Brasil, o chefe do Executivo acenou com simpatia aos radicais de direita e ao mercado, em vez de ocupar-se dos grupos sociais vulneráveis – os mais expostos ao contágio e à perda dos meios de subsistência.

E os grupos vulneráveis são os mais invisibilizados, apesar de conquistas recentes – conquistas incompletas e pontuais, recordemos. Dentre esses grupos, o isolamento social compulsório atinge especialmente as mulheres, sobretudo negras e pobres. Afinal, 63% dos lares chefiados por mulheres negras com filhos de até 14 anos estão abaixo da linha de pobreza, segundo a Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE, de 2019.

Ademais o trabalho feminino doméstico – naturalizado, não remunerado, raramente compartilhado com os homens – prossegue na quarentena, já que é hierarquizado consoante o gênero. No isolamento, os cuidados com os membros da família, sintomáticos ou não, recaem sobre as mulheres. É, portanto, razoável inferir que, em parte devido a esses cuidados, os sistemas de saúde ainda não colapsaram.

A pandemia atinge a todos, mas é fácil notar como o sexo feminino está no olho do furacão. Ainda que analisemos o trabalho remunerado, veremos que às mulheres cabe a maior fatia da informalidade e de empregos precarizados, como as diaristas. Sem contar que as formas de socialização patriarcais destinaram as mulheres tradicionalmente a postos, hoje de risco, como o de enfermeira e cuidadora de idosos.

O coronavírus irá retroceder. A sociedade voltará ao normal, porém uma normalidade com um mercado amoral e o patriarcado a perpetuar habitus, no dizer de Bourdieu, e privilégios que muitas mulheres, sem perceber, ajudam a perpetuar. A pandemia, contudo, pode servir, ao menos, para escancarar a lógica androcêntrica e capitalista. Como afirmou Nancy Fraser, precisamos, nós mulheres, de reconhecimento e de redistribuição dos recursos econômicos.

É hora de o feminismo seguir atento e ativo, denunciando e resistindo. Maria Lacerda de Moura, feminista brasileira, escreveu: “Calar hoje é ser cumplice. Pratiquemos o crime inominável da coragem, no meio da covardia e do cinismo da hora presente”.

Katarina Brazil é advogada, mestre em Direito Constitucional e especialista em marketing político eleitoral

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