Jornal Impresso

Pacote indesejado

Tunay Moraes Peixoto

Na última terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro utilizou transmissão em cadeia nacional para, mais uma vez, fazer ilações absurdas e atacar a imprensa.

Entre tantas inverdades, deturpações da realidade e opiniões moralmente questionáveis e sem o menor embasamento teórico já proferidas pelo ocupante do Palácio do Planalto, desde quando era um mero deputado do baixo clero (sem projeto relevante apresentado em 28 anos, sempre bom lembrar), que incendiava os estúdios da Rede TV! em participações no programa Superpop!, apresentado por Luciana Gimenez, nada me parece pior do que o que foi dito naqueles menos de cinco minutos.

Ao induzir os brasileiros a crer que a imprensa é alarmista; que estamos aptos a voltar a ocupar as ruas e que os cientistas estão errados, Bolsonaro não apenas desafia a lógica, mas despreza o que o mundo inteiro adota como medidas de precaução e sensatez – a despeito da inevitável retração da economia. Além de praticamente incitar um suicídio coletivo.

Como o histórico do mandatário atesta que ele nunca respeitou nada nem ninguém (nem mesmo os próprios eleitores, posto que não apresentou propostas ou debateu com os concorrentes no pleito que o elegeu) não se pode dizer que tenha enganado alguém. Problema de quem acreditou que a magnitude do cargo o faria criar um pouco de verniz e de bom senso.

É legítimo e justificável que milhões tenham votado nele. Mas o rosário de impropérios e o desmonte de áreas fundamentais para a construção de qualquer país que se pretenda uma grande nação (se é que ele compreende a diferença de conceitos como nação, estado e país); como meio ambiente, educação e cultura, deveria fazer seus apoiadores corarem de vergonha. Continuar a apoiá-lo não apenas beira o irracional, como só pode ser explicado por meio de duas variáveis, igualmente preocupantes: ou fanatismo ou mau-caratismo.

Afinal, as reformas – moeda de troca para apoiá-lo – não vieram, o crescimento econômico também não, mas, ainda assim, o setor produtivo se agarra a um cadáver insepulto. Costumo fazer uma comparação vulgar: Bolsonaro é como um pacote de fezes humanas. Pode até servir de adubo, mas causa um incômodo terrível e prolongado, além de inviabilizar o cultivo de várias espécies de alimento. Resta saber até quando as classes dominantes vão arrastar esse pacote indesejado.

Tunay Moraes Peixoto é editor de Panorama do O OTIMISTA

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS