Política

Cientista político avalia que vídeo favorece Bolsonaro, mas que o presidente poderá sofrer consequências

Para os opositores, o tom demonstra despreparo e falta de compromisso com a democracia. Aliados minimizam tom das declarações

Parlamentares cearenses da bancada federal divergem quanto a conteúdo

Redação O Otimista
ootimista@ootimista.com.br

O tom com que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comandou a reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo foi divulgado nesta sexta-feira (22) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, chamou a atenção de muitos. A questão levantada é se aquilo seria um tom adequado para uma reunião de trabalho comandada pelo presidente da República. Segundo levantamento feito pela Folha de S. Paulo, foram ao menos 37 palavrões. Deste, 29 foram proferidos por Bolsonaro.

De acordo com Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, o vídeo foi “uma camada de mel para os bolsonaristas”. Ele diz que o vídeo fortalece a mensagem do presidente junto ao seu eleitoral de liberalismo econômico e conservadorismo social, exatamente nos termos em que foi prometido na campanha.

Isso não significa que o vídeo não terá consequências para o presidente. Se não há ali a prova cabal da acusação feita pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, de que Bolsonaro teria tentado intervir na Polícia Federal para proteger sua família, o tom das críticas pode dificultar a aproximação que o presidente vinha ensaiado com o grupo de partidos centristas de menor porte na Câmara, o chamado Centrão, bem como mais uma vez tensionar a relação do Planalto com prefeitos e governadores. “Essa tensão fica no ar”, declara. Segundo o especialista, o tamanho do impacto poderá ser medido a partir de segunda-feira.

Antes mesmo de assistir o vídeo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), demonstrou não ter ficado surpreso. “Há alguns ministros que não precisam de reunião reservada para serem agressivos e atacarem as instituições”, ironizou, citando nominalmente o titular da Educação, Abraham Weintraub, e do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno. “São dois que têm a mania do enfrentamento e do ataque, até abusivo em alguns momentos, em relação às instituições”, declarou em uma live promovida pela emissora Record News na noite de sexta-feira (22).

Bancada cearense
Na bancada cearense, não faltaram críticas. “Achei tão desagradável que eu não tive condições de ver na íntegra”, declarou Pedro Bezerra (PTB). Segundo ele, o linguajar “não condiz com a conduta de quem ocupe qualquer cargo eletivo, ainda mais o presidente”. Para ele, o presidente deve ser, antes de tudo, um conciliador.

Bezerra também lamenta que o comportamento não se limite a Bolsonaro. “Há toda uma equipe ligada a ele que não tem a habilidade e o trato necessários para lidar com a situação”, disse.

“Esse vídeo divulgado, da reunião ministerial, é um horror”, declarou José Guimarães (PT) em vídeo ainda na sexta-feira. “Os democratas desse imenso país ficaram chocados com o conteúdo. As palavras, os gestos dizem bem qual o significado desse governo. É um governo sem apreço pelas instituições da República, e muito menos pelas liberdades e pela democracia”, disse.

Mas houve também quem minimizasse o conteúdo. Foi o caso de Heitor Freire (PSL). “Em reuniões de trabalho de qualquer empresa, alguns membros podem se exaltar ao abordar temas mais sensíveis em suas atividades para seus chefes. Outras, são menos passionais, digamos, em suas explanações”, declarou em nota enviada por sua assessoria de imprensa. Para ele, “algumas exposições podem ser mal interpretadas se assistidas por pessoas que não estão inseridas no contexto desse tipo de situação”.

Mais passional na sua defesa foi Jaziel Pereira (PL). “O vídeo da reunião ministerial liberado só comprova o que já sabemos: temos um presidente lutando pela nossa liberdade bravamente, e cobrando os ministros para que lutem junto dele”, disse em sua conta na rede social Twitter.

Para ele, o vídeo fortaleceu o presidente. “Celso de Mello é bolsonarista. Só pode”.

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