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Para parlamentares, falta de liderança atrapalha diálogo e ações durante crise

Segundo congressistas cearenses, discurso do presidente da República subestima pandemia. Outros defendem conteúdo, mas afirmam que Bolsonaro não conseguiu transmitir a mensagem. Para analista, presidente sairá menor da crise

Em pronunciamento, Bolsonaro minimizou a doença (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Renato Sousa

rsousa@ootimista.com.br

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não tinha muitos aliados na bancada cearense. Depois do pronunciamento em rede nacional terça-feira – em que atacou governadores, imprensa e minimizou a pandemia do novo coronavírus -, a situação ficou mais difícil. A reação de parlamentares cearenses ao discurso foi em tom duro.

“A atuação do ministro (da Saúde Luiz Henrique) Mandetta (DEM) é extremamente louvável, mas infelizmente o presidente não está à altura do cargo”, declarou o líder da oposição na Câmara, André Figueiredo (PDT).

Ele diz que o texto não piora o relacionamento com o Parlamento por um motivo simples: o relacionamento já era péssimo antes da crise. “Ele (Bolsonaro) está querendo desunir, mas nós queremos unir o Brasil”, diz.

O senador Tasso Jereissati, por nota, chamou de “cruel contabilidade” a postura do presidente em relativizar a possibilidade de mortes pela Covid-19.

“Mais absurda ainda é a ideia que começa a se disseminar a partir do discurso do presidente de que a morte de alguns seria o preço a se pagar pela manutenção de empregos e da atividade econômica, este sim o mal maior a ser combatido”, declarou.

Também por nota, o senador Eduardo Girão (Podemos) adotou tom mais ameno.

“O momento exige, acima de tudo, muito equilíbrio e serenidade. Não é hora de disputa política. Nem de um lado e nem de outro”, diz. E completa: “é preciso buscar equilíbrio entre o controle defendido pelas autoridade de saúde, se possível com a redução gradual e responsável do isolamento”.

O deputado Heitor Freire (PSL) afirma que a intenção do presidente foi certa, mas ele errou no tom. “Acredito que a intenção do discurso do Presidente era a de tentar acalmar a população e não deixar a economia parar. Pena que ele não conseguiu passar a mensagem de forma adequada”, disse.

Na contramão das críticas, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, já sinalizou que deve flexibilizar a abertura dos comércios. Segundo ele, de forma parcial.

Governadores

Para Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, a fala de Bolsonaro foi “na história republicana, talvez o (discurso) mais irresponsável de um presidente no exercício do mandato”.

De acordo com ele, o presidente mantém sua postura de confrontação mesmo diante da crise causada pelo coronavírus. “O presidente não tem apresentado liderança, ele tem muito mais se guiado por ações pautadas no confronto”, declara.

E a falta de liderança está sendo preenchida, neste momento, pelos chefes dos Executivos estaduais.

“O poder não fica órfão”, diz. Nessa crise, Bolsonaro deve sair menor. E os governadores têm potencial de ampliar seu capital político.

“Os governadores que assumirem uma posição dura e séria, quase que no sentido de uma guerra, sem dúvida ganharão capital político. Capital político este que o presidente parece estar perdendo”, declara.

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